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Testemunhas de Jeová, Aniversários e Paganismo

Copyright © 2010 William Gadêlha

 

Nada há, no assunto agora tratado, de dramático, vital ou de sérias consequências. Não achamos que é algo que tenha a ver com a salvação, ganhar ou perder a aprovação de Deus, uma questão de vida ou morte. Antes, este assunto será considerado como representativo de tantos outros em que a Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), ou STV, alegando ter autorização divina e inspirando-se tão somente na opinião de homens que num determinado momento estavam na sua liderança, impõe opiniões e conceitos, estes sim, como se fossem dramáticos e vitais, de sérias consequências, questões de vida e morte que podem levar à desaprovação de Deus. Ilustra também os raciocínios casuísticos, arbitrários, esdrúxulos e às vezes até contraditórios, com que a liderança da Torre de Vigia, seu corpo governante, transforma em leis de Deus as ideias de homens imperfeitos.


Muitos já sabem que até meados dos anos 20 do século passado os membros da organização Torre de Vigia (então chamados Estudantes da Bíblia) participavam livremente em festejar aniversários, com todos os aspectos e elementos que deles fazem parte. Hoje, como é bem sabido por aqueles que são conhecidos, vizinhos, parentes e colegas de escola e trabalho de Testemunhas de Jeová, estas evitam totalmente tais celebrações.

 


Os Motivos da Torre de Vigia


Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna (1995), páginas 126-127:


A Bíblia menciona especificamente apenas dois aniversários natalícios, ambos de homens que não serviam a Deus. (Gênesis 40:20-22; Mateus 14:6-11) Já que as Escrituras não revelam a data do nascimento de Jesus Cristo, que foi um homem perfeito, por que deveríamos dar atenção especial ao aniversário de pessoas imperfeitas?

 

O Que A Bíblia Realmente Ensina? (2005), página 157:


Existe ainda outro motivo pelo qual os cristãos do primeiro século não comemorariam o aniversário de nascimento de Jesus. Eles provavelmente sabiam que as comemorações de aniversário natalício tinham ligação com superstições. Por exemplo, muitos gregos e romanos dos tempos antigos acreditavam que um espírito acompanhava o nascimento de cada ser humano e o protegia pelo resto da vida. “Esse espírito tinha uma relação mística com o deus cuja data de nascimento era a mesma que a da pessoa”, diz o livro The Lore of Birthdays (A Tradição dos Aniversários Natalícios).


A STV cita ainda (sem menção a aniversários), o cardeal católico John Henry Newman.


Revelação – Seu Grandioso Clímax está Próximo! (1989), página 236, rodapé:

 “O emprego de templos, e estes dedicados a certos santos, e enfeitados em ocasiões com ramos de árvores; incenso, lâmpadas e velas; ofertas votivas ao restabelecer-se de doenças; água benta; asilos; dias santos e estações, uso de calendários, procissões, bênçãos dos campos, vestimentas sacerdotais, a tonsura, a aliança nos casamentos, o virar-se para o Oriente, imagens numa data ulterior, talvez o cantochão e o Kyrie Eleison [o canto “Senhor, Tende Piedade”], são todos de origem pagã e santificados pela sua adoção na Igreja.”

 

Já que este serviu de referência à STV com relação a coisas de origem pagã, vale a pena perguntar: Até que ponto é exata a afirmação do cardeal Newman? Analisemos alguns dos itens por ele alistados:


Incenso – Apesar de apresentado como de origem pagã, veja o que a Bíblia diz sobre o incenso em Êxodo 30:1:


E farás um altar para queimar o incenso; de madeira de acácia o farás. (ACF)


Estas foram palavras do próprio Deus. Partiu dele a ordem quanto ao uso de incenso pelos israelitas. Os pagãos o usavam também, mas isto não foi empecilho para que não fizesse parte da adoração do verdadeiro Deus.


Lâmpadas – Levítico 24:1-4 nos fala sobre lâmpadas sendo usadas na adoração do Deus da Bíblia:


E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Ordena aos filhos de Israel que te tragam azeite de oliveira, puro, batido, para a luminária, para manter as lâmpadas acesas continuamente. Arão as porá em ordem perante o SENHOR continuamente, desde a tarde até à manhã, fora do véu do testemunho, na tenda da congregação; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações.  Sobre o candelabro de ouro puro porá em ordem as lâmpadas perante o SENHOR continuamente. (ACF)


Uma vez mais, equivocou-se o cardeal Newman. Além de usada na adoração pagã, a lâmpada tinha seu lugar também na adoração dos israelitas.


Velas – A palavra “velas” (para iluminação, não a dos barcos) não ocorre na Bíblia, mas há referência a elas sendo usadas em celebrações religiosas israelitas.


O Homem em Busca de Deus (1990), página 230:


Hanucah Festividade da Dedicação. Festividade popular realizada em dezembro, que comemora a restauração, pelos macabeus, da independência judaica da dominação siro-grega e a rededicação do templo em Jerusalém, em dezembro de 165 AEC. Em geral destaca-se por se acender velas durante oito dias.


Destaque-se ainda que embora esta celebração religiosa não tivesse sido ordenada pela lei de Moisés, Jesus não achou impróprio participar dela.

O Maior Homem Que Já Viveu (1991), capítulo 80:


JESUS veio a Jerusalém para a Festividade da Dedicação, ou Hanukkah, a festividade que comemora a rededicação do templo a Jeová.


Portanto, as velas EM SI, não trazem nenhum problema. O que deve contar é a INTENÇÃO com que são usadas. Se os pagãos as utilizavam com determinado significado, certamente não era o caso de quando os israelitas as empregavam.


Vestimentas sacerdotais – Também é significativo que vestimentas sacerdotais não eram exclusividade da religião pagã. O próprio Deus determinou que se fizessem vestimentas sacerdotais para Arão e os demais sacerdotes, dando para isso instruções pormenorizadas.


Êxodo 28:4:


Estas pois são as vestes que farão: um peitoral, e um éfode, e um manto, e uma túnica bordada, uma mitra, e um cinto; farão, pois, santas vestes para Arão, teu irmão, e para seus filhos, para me administrarem o ofício sacerdotal.


É lógico que estas vestes do sumo sacerdote de Israel não eram iguais às de sacerdotes pagãos. O fato, porém, é que nem toda vestimenta sacerdotal é de origem pagã.


Ofertas votivas ao restabelecer-se de doenças – Dependendo da motivação, do objetivo e do modo de se pagar um voto a Deus, o voto pode ter de fato algo oriundo do paganismo, mas será que isso torna errado todo e qualquer voto? Será um voto feito em relação ao restabelecimento de doenças algo que não tenha lugar na adoração bíblica? Vejamos isso com relação ao voto feito por Ana, mãe de Samuel, algo que nos dá o que pensar a respeito.


1 Samuel 1:10, 11:


Na amargura de sua alma, ela orou a Iahweh e chorou muito. E fez um voto, dizendo: “Iahweh dos Exércitos, se quiseres dar atenção à humilhação da tua serva e te lembrares de mim, e não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho homem, então eu o consagrarei a Iahweh por todos os dias da sua vida, e a navalha não passará sobre a sua cabeça.” (BJ)


Aqui fez-se um voto relacionado com esterilidade, um problema físico. Pode-se considerar isto uma doença? Seja como for, parece não haver na Bíblia algo que o condene. Outra vez, exagerou o cardeal Newman em sua lista de coisas de “origem pagã”. Nem todos os itens são realmente prática exclusiva das religiões pagãs.


Evidentemente, incenso, lâmpadas, velas e vestes sacerdotais não foram ordenadas como parte da adoração cristã. Mas não eram exclusividade do paganismo, como declara o cardeal Newman, citado nas publicações da STV. Na lista dele, porém, chama-nos a atenção a presença da aliança de casamento e a ausência da festa de aniversário. Assim, a lista do escritor citado falha não só por não ser exata como por não ser completa.

 

Podemos, então, considerar as razões apresentadas nas publicações da STV para condenar as festas de aniversário.

A STV alega a origem pagã do costume e como já vimos, ela destaca o fato de que os dois únicos aniversários que a Bíblia menciona são de pagãos.


A Escola e as Testemunhas de Jeová (1983), p. 14:


Mas, as únicas duas celebrações de aniversários natalícios mencionadas na Bíblia envolviam pessoas que não eram crentes verdadeiros. Eram o Faraó do Egito e o governante romano Herodes Ântipas, sendo que a celebração do aniversário deles teve resultados mortíferos. (Gênesis 40:18-22; Marcos 6:21-28)


Raciocínios (1989) página 37:


Tudo o que está na Bíblia tem uma razão de estar ali... As Testemunhas de Jeová notam que a Palavra de Deus relata desfavoravelmente as celebrações de aniversários natalícios, de modo que as evitam.


Note que a STV diz acima que tudo o que está na Bíblia tem uma razão de ser e que ela “relata desfavoravelmente” as duas festas de aniversário registradas.


Ora, o fato de que duas pessoas (o padeiro do Faraó e João Batista) foram mortas nestas duas ocorrências de aniversários registradas na Bíblia não quer absolutamente dizer que tais festas estejam erradas. A morte de Jesus, afinal, coincidiu com a celebração da Páscoa dos judeus, mas isso não ocorreu como parte das comemorações da Páscoa e nem tornou a Páscoa impura por isso. A festa de aniversário de Herodes Ântipas teria terminado sem ninguém ser morto se a enteada do rei não tivesse exigido isso dele como retribuição pela dança que apresentou na ocasião.


Jesus esteve na festa de casamento em Caná da Galileia, onde, inclusive em resultado do milagre operado por ele, havia grande quantidade de vinho. (João 2:1-11) Se muitos nessa festa tivessem incorrido em beber demais e causado turbulência, constituiria isso motivo para que todas as festas de casamento fossem condenadas como maléficas?

Leve-se em conta também coisas que já ocorreram em festas de casamento de Testemunhas de Jeová, relatadas pela Sentinela de 15 de outubro de 1984, página 17:


“Alguns aproveitam as [festas de casamento] para se ‘soltar’. Raciocinam que oportunidades assim são poucas, de modo que querem aproveitá-las ao máximo para dar vazão à pressão, para dar rédea solta a desejos reprimidos no resto do tempo. Não é de admirar que o clima da festa fique turbulento.” – Europa.


 “Parece que a celebração de casamento consiste em um discurso, comer um pouco e daí dançar até clarear o dia. Alguns acham que nas recepções podem beber mais do que de costume, e amiúde bebem demais.” – América Latina.


 “A festa de casamento pode incluir ‘dançar até o dia amanhecer’. Algumas dessas festas são realmente mundanas – turbulentas, com muita bebida e danças mundanas. Muitos apelam para a ostentação, com roupas caras e muitas caixas de cerveja.” – África.


Os exemplos citados acima pela Sentinela são exceções. A grande maioria das festas de casamento das Testemunhas de Jeová não é assim. Faria sentido, então, que a STV resolvesse condenar e proibir todas as festas de casamento de seus adeptos? Logicamente que não. Portanto, não se justifica condenar as festas de aniversário atuais com base nos eventos lamentáveis destas duas que a Bíblia relata. Do mesmo modo, o mero fato de que pagãos adotavam certo costume não significa que hoje ele esteja proibido para nós, como veremos a seguir.

 


Precedente de Uma Era Distante


Jacó e José, por exemplo, eram servos de Jeová, mas quando Jacó faleceu José mandou embalsamá-lo (costume religioso dos egípcios pagãos), e mais tarde o corpo do próprio José foi também embalsamado. (Gênesis 50:2, 3, 26). Evidentemente, Jacó e José não partilhavam das crenças pagãs egípcias. Jacó tinha pedido, ao morrer, para ser sepultado junto a seus pais, em Canaã (Gênesis 49:29). O embalsamamento de seu corpo talvez visasse a preservá-lo durante a viagem de vários dias através do deserto, rumo a Canaã. José também tinha determinado que, quando os israelitas deixassem definitivamente o Egito, levassem seus “ossos para fora” dali a fim de ser sepultado na Terra da Promessa. (Gênesis 50:24, 25) Foi embalsamado também provavelmente por esse motivo.


Tanto num caso como no outro o que estava em jogo era a motivação. Esses dois aprovados servos de Jeová do passado não acharam que sua atitude seria interpretada por Deus como uma concessão a práticas religiosas pagãs. Eles sabiam por que tinham tomado a decisão que tomaram. Estavam conscientes de sua motivação.

 


Ausência de Proibição e Incoerência Humana


Em parte alguma da Bíblia se proíbe a comemoração de aniversários. A principal razão apresentada é que os judeus e os primitivos cristãos não tinham o costume de celebrá-los. Seria isso razão suficiente para que os cristãos não os celebrassem atualmente? A Sentinela 1º de setembro de 1992, página 30, admite que:


Alguns costumes que outrora eram de natureza religiosa já não o são em muitos lugares. A aliança, por exemplo, outrora tinha significado religioso, mas hoje em dia já não tem na maioria dos lugares. Por isso, muitos cristãos verdadeiros aceitam o costume local de usar aliança como evidência de estarem casados.


E prossegue dizendo a Sentinela:


Em tais assuntos, o que geralmente conta é se atualmente o costume em questão está vinculado com a religião falsa.


Bem, se é isso o que conta, no nosso país e até onde nós sabemos em grande parte do mundo, ninguém atualmente relaciona festa de aniversário com qualquer espécie de religião. É só interrogar as pessoas comuns sobre o assunto. Toda TJ que dirige estudos domiciliares com pessoas de fora, sabe que elas ignoram a origem religiosa pagã do aniversário e só ficam sabendo disso quando informadas de que a STV os condena como sendo de origem pagã. Nem sempre é fácil convencê-las, pois além de a Bíblia não proibi-los elas normalmente não conseguem associar aniversários com religião. Se em algum lugar do mundo as festas de aniversário permanecem vinculadas a tradições ou superstições de cunho pagão, se as pessoas e a comunidade estão conscientes disso, cabe aos afetados decidir o que fazer.


É verdade que os cristãos do primeiro século não festejavam aniversários. Viviam numa época em que tais festas estavam intrinsecamente ligadas à religião pagã e eram, de fato, festas religiosas. Era razoável que reagissem assim, mas como disse a Sentinela 1/9/92 acima citada, o aniversário natalício pode perfeitamente ser classificado como uma festa que “outrora tinha significado religioso, mas hoje em dia já não tem na maioria dos lugares.” Como acabamos de ver, a STV admite o uso das alianças de casamento (também de origem pagã) “hoje em dia”. A Bíblia não ordena seu uso, e usá-las ou não, é hoje uma questão pessoal.


Agora, reflitamos um pouco: o que parece ter mais significado religioso atualmente, a troca de alianças entre os noivos ou a festa de aniversário? Qual das duas costuma ocorrer numa igreja ou edifício religioso? Qual das duas costuma contar com a participação de um clérigo ou ministro religioso? A resposta parece bem clara e nem assim a STV condena o uso das alianças, no que tem razão, visto que a ideia da origem pagã está hoje ausente da mente das pessoas.


Uma simples opinião humana (provavelmente a de Joseph Rutherford, nos anos 20) decretou o aniversário como proibido e a aliança como lícita. Sendo as duas coisas de origem pagã, é pura incoerência proibir uma enquanto se libera a outra. Foi uma decisão de cunho pessoal de QUEM tomou essa decisão lá na década de 20.


Adicionalmente (e também surpreendentemente), A Sentinela 1º de abril de 1993, página 4, informa:


A prática do batismo, porém, antecede à fé cristã. Era usada em Babilônia e no antigo Egito, onde se achava que as águas frias do Nilo aumentavam a força e concediam imortalidade. Também os gregos acreditavam que o batismo pudesse causar a regeneração ou pudesse conseguir a imortalidade para o iniciado.


Portanto, o batismo também tem origem pagã, era praticado em Babilônia e no Egito em conexão com crenças supersticiosas, e nem por isso deixou de ser usado por João Batista bem antes de ser ordenado por Jesus em Mateus 28:19. Só depois é que foi adotado pelos discípulos de Cristo e por toda a comunidade cristã do primeiro século, que passaram a praticá-lo por ordem de Jesus, e, então, com um significado e uma motivação inteiramente diferentes das dos pagãos. Será que a origem pagã de algo tem o poder de contaminá-lo perpetuamente? A Bíblia não dá essa impressão.

 


Piñatas e Pedras da Sorte


A “piñata” (pronuncia-se “pinhata”) é uma tradição bastante difundida em certos países americanos. Trata-se de uma brincadeira que normalmente se dedica às crianças, mas pode envolver adolescentes e até adultos. Consiste em uma panela, recheada de doces, totalmente coberta por papel crepon, suspensa no ar a uma altura média de dois metros, onde o participante, vendado, tenta quebrá-la com um bastão e, consequentemente, liberar os doces. É especialmente popular no México, sob a forma de uma estrela de cinco ou mais pontas.



Sobre a piñata conhecida no México, dizia a revista Despertai! 22 de dezembro de 1971, páginas 23-24:


Ligações Religiosas

 ...seu uso tornou-se parte de celebrações religiosas... Os materiais usados na confecção das piñatas são um pote de barro, papel crepom, um pouco de cola e papelão para dar forma à figura... Catequistas católicos empregavam piñatas ao darem instrução religiosa aos nativos índios. Eram usadas, por exemplo, em relação com a Quaresma... Na véspera da Páscoa, quebra-se uma piñata na forma de Judas Iscariotes, espalhando doces que as crianças disputam entre si... As piñatas passaram também a ser usadas em relação com o Natal...


Parece pouco, mas falando de uma típica celebração mexicana relacionada com o Natal, a posada, prossegue a Despertai!:


A celebração chega ao fim com a quebra da piñata... Os catequistas católicos deram grande significado ao uso da piñata em sua celebração religiosa. Ensinaram que a piñata representa o Diabo ou um espírito mau. Hoje em dia, a Posada no México dá destaque à desordem, à bebedeira e atividade criminosa. Usam-se as celebrações como desculpa para o modo de vida desenfreado e imoral. Com frequência, pessoas são mortas, e outras são roubadas e feridas... A posada lembra a primitiva festa pagã romana de meados de dezembro, as Saturnais. O fato é que as enciclopédias dizem que esta festa pagã proveu o modelo para muitos costumes festivos do Natal, dentre os quais a Posada e o uso da piñata estão intimamente relacionados... Atualmente, porém, muitos dão pouca consideração aos aspectos religiosos da Posada e da quebra da piñata... Mas, muito embora o uso da piñata seja bastante popular em certos lugares, há os que têm sérias dúvidas quanto a ele devido às práticas da religião falsa ligadas a ele.


O que entendemos deste artigo da Despertai! sobre a piñata? Colocou-a sob luz favorável ou desfavorável? Quem seriam “os que têm sérias dúvidas quanto às práticas da religião falsa ligadas a ele”? Não foi a STV neste artigo bem mais explícita e desfavorável sobre a piñata do que a Bíblia sobre as festas de aniversário? E muito embora a STV ache que a Bíblia “relata desfavoravelmente” as festas de aniversário, a verdade é que ela relata as duas celebrações de modo muito simples, sem aprová-las ou condená-las. Não apresentou a STV mais pontos negativos sobre a piñata do que a Bíblia sobre festas de aniversário?


Apesar disso, numa declaração mais recente, veja como mudou o conceito da STV sobre a piñata.


Despertai! 22 de setembro de 2003, páginas 23-24:


Constatamos que para muitos no México a piñata perdeu seu significado religioso e que a maioria a considera apenas uma diversão inofensiva... Ao considerar se vai incluir uma piñata numa reunião social, o cristão deve ser sensível à consciência dos outros... A coisa importante não é o que essa prática significava centenas de anos atrás, mas sim como é encarada hoje na sua região. Compreensivelmente, as opiniões variam de um lugar para outro. Assim, é sensato não criar caso por este motivo.


Achamos até razoável o modo de pensar expresso acima. Infelizmente, ele se contradiz com a posição da STV quanto às festas de aniversário. Podemos hoje, parafraseando a própria declaração da STV na Despertai! 22/9/03, muito bem dizer: “Constatamos que para muitos no mundo a festa de aniversário perdeu seu significado religioso e que a maioria a considera apenas uma diversão inofensiva”.


Muito interessante também é como a STV respondeu à pergunta de um leitor sobre como devem os cristãos considerar o uso de pedras da sorte em aneis.


A Sentinela, 15 de novembro de 2003, p. 27:


Um fator muito importante a se analisar é a motivação. Ao decidir se deve ou não usar um anel com uma pedra associada à data do seu nascimento, o cristão pode perguntar-se: “Quero usar esse anel só porque a pedra me agrada, embora ela também seja considerada pedra da sorte, ou deixei-me influenciar pelas idéias supersticiosas que certas pessoas atribuíram a pedras deste tipo?”... Ao decidir por si mesmo se deve ou não usar uma pedra relacionada com a data do seu nascimento, cada cristão deve analisar bem a sua motivação, e os possíveis efeitos dos seus atos sobre ele mesmo e sobre outros.


“Decidir por si mesmo”. Assim, o uso destas pedras da sorte tornou-se questão de consciência, decisão pessoal. Observe como este raciocínio pode ser totalmente aplicado às festas de aniversário. Por que não pode o cristão analisar sua motivação quanto a uma festa de aniversário? Por que não pode o cristão, acerca da festa de aniversário, perguntar-se também? “Quero celebrar meu aniversário só porque quero alegrar-me com meus parentes e amigos, embora ele tenha tido uma origem pagã, ou deixei-me influenciar pelas idéias supersticiosas que certas pessoas atribuem a festas deste tipo?”


Está muito claro, portanto, que a condenação das festas de aniversário é algo totalmente arbitrário por parte da STV, já que ela se mostra tão liberal quando trata de assuntos tais como a aliança de casamento, a piñata mexicana e o uso de aneis com pedras da sorte, todos tratados como questões de consciência individual.

 


Os Detalhes das Festas de Aniversário

 

A STV alista ainda a origem pagã de vários elementos das festas de aniversário.


Raciocínios (1989) p. 38:


 “Os vários costumes de celebração de aniversários natalícios das pessoas hoje em dia têm uma longa história. Suas origens acham-se no domínio da mágica e da religião. Os costumes de dar parabéns, dar presentes e de celebração – com o requinte de velas acesas – nos tempos antigos eram para proteger o aniversariante de demônios e garantir segurança no ano vindouro... As velas de aniversário, na crença popular, são dotadas de magia especial para atender pedidos... Velas acesas e fogos sacrificiais têm um significado místico especial desde que o homem começou a erigir altares para seus deuses. As velas de aniversário são assim uma honra e um tributo à criança aniversariante e trazem boa sorte”.


Dar parabéns – Isto em si, nada tem de errado. As pessoas são parabenizadas por diversos motivos, como casamento, nascimento de filhos, obtenção de um bom emprego ou de algum prêmio, etc. Até Testemunhas de Jeová são parabenizadas (além de entusiasticamente aplaudidas) quando recebem designações como anciãos, servos ministeriais e pioneiros ou pioneiras. Considera-se isso algo normal. Assim, desde que a ideia de parabenizar alguém por seu aniversário refira-se ao mero fato de que a pessoa completou mais um ano de vida (a vida longa é uma bênção) e não tenha nada a ver com nenhuma crença ou superstição pagã, que problema há? O mesmo pode se dizer com respeito a bater palmas.


Dar presentes – A Bíblia também não condena o costume de dar presentes, evitadas também, as motivações erradas, como destacou a Sentinela 15 de novembro de 2003.


Acender e apagar velas – Mais uma vez, tudo dependerá de como e por que a pessoa faz isso, da sua motivação, como Jacó e José no caso do embalsamamento de seus corpos. Eu, por exemplo, que tive várias festas de aniversário na infância antes de aderir à organização Torre de Vigia, sempre encarei as velinhas que apagava como representando o número de anos já vividos. Nunca ninguém me falou sobre proteção espiritual ou sobre fazer algum pedido. No entanto, é preciso deixar bem claro que outra pessoa pode reagir a isso de modo diferente. Alguém pode não conseguir encarar tais velinhas do bolo de modo isento e sentir que viola sua consciência. Neste caso, pode evitar as velinhas ou até mesmo, se for o caso, a própria celebração.

 


Atenção Idólatra?


Resta o argumento de que as festas de aniversário dão excessiva atenção a pessoas imperfeitas, como vimos antes no livro Conhecimento.


A Escola e as Testemunhas de Jeová (1983), página 15:


Além disso, os aniversários natalícios costumam dar importância excessiva à pessoa, o que foi, sem dúvida, um dos motivos de serem evitados pelos primitivos cristãos. (Eclesiastes 7:1) De modo que notará que as Testemunhas de Jeová não participam em festas de aniversários natalícios (na celebração, no cantar, nos presentes, e assim por diante).


Observe que a citação não traz realmente nenhuma declaração bíblica contra a festa de aniversário, mas concentra-se numa mera opinião de que estas festas dão excessiva atenção a pessoas humanas, deixando implícita uma acusação de tendência idólatra. E até que ponto é "excessiva" a "importância" dada a alguém? Quem teria o direito de determinar isso? Não está isso diretamente relacionado ao apreço e ao carinho que se tem por alguém? Trata-se de algo muito relativo. É natural, por exemplo, que pais e mães deem muita importância aos filhos pequenos. Mas e se eles derem similar importância e mostrarem preocupação com outras crianças, alguns podem até achá-la excessiva, mas não é isto louvável segundo o princípio de Mateus 5:46-47? Apesar de usarem a expressão “sem dúvida”, trata-se apenas de uma opinião escrita por alguém, seres humanos que se acham autorizados a criar normas para que outros as obedeçam, mesmo que a Bíblia nada diga a respeito.


Mas consideremos agora o que a Bíblia diz sobre atenção dada a seres humanos.


A única coisa que só podemos render a Deus é adoração, devoção exclusiva (Êxodo 20:4). Podemos corretamente render homenagem (ou honra), atenção, amor e carinho a outros seres humanos. Veja os textos abaixo:


Romanos 12:10:


"Em amor fraternal, tende terna afeição uns para com os outros. Tomai a dianteira em DAR HONRA uns aos outros".


Romanos 13:7:


"Rendei a todos o que lhes é devido... a quem exigir HONRA, tal H0NRA".


Mateus 2:11:


"E, ao entrarem na casa, viram a criancinha com Maria, sua mãe, e prostrando-se, PRESTARAM-LHE HOMENAGEM".


Lucas 24:52:


"E prestaram-lhe HOMENAGEM e voltaram para Jerusalém com grande alegria".


Revelação 3:9:


"Eis que darei os da sinagoga de Satanás, que se dizem judeus, e que não são, mas estão mentindo - eis que os farei vir e prestar HOMENAGEM diante dos teus pés... [refere-se a um ser humano]."


Honra ou homenagem, como vimos, pode ser corretamente prestada a seres humanos. Isto é o que se faz nas festas de aniversário. Ninguém supõe estar prestando adoração religiosa a ninguém numa festa de aniversário. Ninguém vai a uma festa de aniversário como quem vai a uma celebração religiosa.

 


Contradição 


E o que são as festas de casamento entre as Testemunhas de Jeová? O que são as festas de despedidas de anciãos, pioneiros e outros que estão de mudança (tão comuns entre as TJs)? O que são as festas de bodas de papel, algodão, prata e ouro de casais Testemunhas? E as festas de formatura e “doutor do ABC” de jovens e crianças das Testemunhas? O que são todas estas senão ocasiões em que “pessoas imperfeitas” recebem "atenção especial", onde se come, bebe, canta, dança, onde se tiram fotografias, dão-se presentes e às vezes fazem-se até brincadeiras e discursos bem humorados, como nas festas de aniversário? Por que a STV não condena também tais celebrações que incluem tanta “atenção especial a pessoas imperfeitas”? Não constitui tudo isso uma grande incoerência, típica das normas humanas?


A STV acha que não é por acaso que as duas únicas referências a aniversários na Bíblia sejam de pagãos e que duas pessoas tenham sido mortas durante a celebração. Ela acha que deste modo Deus expressa sua condenação. Isto, logicamente, é mera conjectura, como é conjectura também do livro Raciocínios explicar que condena festas de aniversário porque “tudo o que está na Bíblia tem uma razão de estar ali”. Pode-se muito bem igualmente afirmar que tudo o que está ausente da Bíblia tem uma razão de estar ausente, já que 1 Coríntios 4:6 declara: “Não vades além das coisas que estão escritas”.


Poderíamos, em contrapartida, raciocinar que se não festejar aniversários fosse de fato uma questão tão crucial, tão importante aos olhos de Deus, se Ele visse isso como algo que faria a diferença entre a salvação eterna e a destruição eterna, não teria Jesus ou um dos escritores do texto grego da Bíblia, principalmente aqueles que escreveram aos cristãos de origem pagã (que outrora tinham celebrado aniversários) e aos que viriam no futuro, deixado uma clara proibição de tais festas, como acontece no caso da fornicação e do roubo, por exemplo?


Nunca é demais lembrar que Charles Russell, fundador da Sociedade Torre de Vigia e da revista A Sentinela, tido em alto conceito pelas Testemunhas de Jeová atuais, e que faleceu em 1916, jamais conheceu a proibição das festas de aniversário. Ele até participou delas, bem como outros de seus contemporâneos irmãos na fé.


Anuário das testemunhas de Jeová de 1976, página 147:


CELEBRAÇÕES E FERIADOS

“Em nossos congressos iniciais, no período entre as sessões à medida que os amigos conversavam”, escreve Anna E. Zimmerman, “talvez acontecesse que alguns amigos lhe passassem seu livro ‘Maná’ [Maná Celestial Diário Para a Família da ], pedindo que escrevesse seu nome e endereço em seu ‘maná’. Escrevia-se numa página em branco, do outro lado, a data de seu aniversário, e quando chegava seu aniversário, e liam o texto naquela manhã para aquele dia, talvez decidissem escrever-lhe um cartão postal ou uma carta, desejando-lhe feliz aniversário.”

Sim, naqueles dias iniciais, os cristãos dedicados comemoravam aniversários. Bem, então, por que não celebrar o suposto aniversário de Jesus? Também fizeram isto por muitos anos. Nos dias do Pastor Russell, o Natal era celebrado na antiga Casa da Bíblia em Allegheny, Pensilvânia. Ora Sullivan Wakefield relembra que o irmão Russell dava aos membros da família da Casa da Bíblia moedas de ouro de cinco ou dez dólares no Natal. Mabel P. M. Philbrick observa: “Um costume que certamente não seria levado a efeito hoje em dia era celebrar o Natal com uma árvore de Natal no refeitório de Betel. O costumeiro ‘bom dia para todos’ do irmão Russell era mudado para ‘feliz Natal para todos’.


A STV crê que Russell, como parte dos que ela chama de “ungidos”, está hoje no céu, usufruindo sua recompensa celestial. Se Deus realmente considera tão grave a celebração de aniversários, como foi possível que não tenha imputado a Russell falta tão grave? Russell teria sido então perdoado por este “pecado”? Por quê? Ou será que este “pecado” (que hoje pode causar expulsão da congregação) não era assim tão grave naquele tempo, mas hoje não tem perdão? Em que data exata (dia, mês, ano) passou a contar como séria transgressão? QUEM decidiu isso, já que a Bíblia nada diz a respeito?


Como já dissemos, a Bíblia não manda nem condena que se comemorem aniversários. Se é assim, todo cristão deveria estar livre para decidir por si mesmo (como no caso da aliança, da piñata e das pedras da sorte) se participa ou não destas comemorações, como participa, o que inclui ou deixa de incluir nelas. Para não irmos “além das coisas que estão escritas” (1 Coríntios 4:6) não podemos condenar os que festejam aniversários e tampouco criticar os que não os comemoram. Todos deveriam respeitar as opiniões uns dos outros e deixar que Deus julgue a atitude de cada um.


 


 


 


 
Segunda, 28 de Julho de 2014 Última Atualização: 15 de Fevereiro de 2010 Visitante Nº: 190277